Desenvolvimento e Hospedagem:
 
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Ninguém é mais Vila Isabel do que Noel Rosa, ou é o contrário?
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Ninguém como ele marcou tanto a cara de um bairro. Nem o Vinicius? Dirá alguém. Quem sabe Tom Jobim?
Ambos marcaram Ipanema, mas será que tanto? Vinícius nasceu na Gávea, Tom na Tijuca, mas isto altera a influência exercida? Como aferir isto?
Quando jovem, ia sempre em companhia de meu pai assistir o carnaval do Boulevard. E ficava ouvindo dele sobre as batalhas de confete, dos bondes apinhados de foliões. Ficávamos ali olhando e fazendo comparações de épocas. Eram os tempos vibrantes do movimento estudantil e dos festivais. Havia entre nós um debate muito interessante: eu defendia com o entusiasmo daqueles tempos que Chico Buarque era maior que Noel Rosa.
Meu pai, que era nascido e criado em Vila Isabel, contemporâneo do poeta, e que tinha a máxima admiração por Chico Buarque, dizia: - meu filho, o Chico teve e terá toda uma vida para mostrar sua obra, Noel viveu apenas 26 anos. Noel é de um tempo em que mal tinha rádio. E concluia afirmando que a resposta para essa questão, só a história daria.
Hoje uso o mesmo argumento de meu pai para comparar Noel com Vinícius e com Tom Jobim.
O tempo de Tom e de Vinícius, como é o de Chico, é infinitamente maior que o de Noel. Vinícius morreu com mais de 70, Tom idem; Chico está com mais de 60. Tiveram a seu lado a TV, a Internet, filmes, satélites e tudo mais. Noel, insisto, viveu 26 anos.
Além disto, quando Tom e Vinícius moraram em Ipanema, o bairro já tinha todo um glamour próprio que, ambos, só fizeram potenciar. Noel Rosa, não ! Naqueles anos 20 do século passado, Vila Isabel era um bairro isolado na zona norte de uma cidade ainda sem túneis, sem Maracanã, equipamentos que fizeram aquela parte da cidade ser conhecida.
Hoje, com a proliferação de celebridades em Ipanema, a imagem de Tom e Vinícius de alguma maneira se diluiu. Noel, não. A pouca mudança das características fundamentais do bairro, a própria maneira de viver de seus moradores, freqüentadores de bares e de festas, manteve o culto à personalidade do poeta e a preservação quase intacta do mito.
Por isto fico com Noel! Noel marcou muito mais o seu bairro.
Pra mim Vila Isabel é Noel; pra mim Noel é Vila Isabel. Se não for de todo verdade, pelo menos rima.
O bairro tem muito a ver com a fama dele, ou será o inverso?
Sergio Cabral uma vez escreveu na última folha de uma Veja já amarelecida, que Vila Isabel era o mais carioca dos bairros cariocas. Quem terá mais autoridade.
Noel é o mais Vila Isabel de Vila Isabel.
Nasceu, viveu e morreu, sempre na mesma casa, em seus inacreditavelmente poucos 26 anos.
Considero que a dimensão carioca do bairro pode até ter sido dada por seu Boulevard, por seu Jardim Zoológico, por seus bondes, até pelo jogo do bicho. Mas considero que sua dimensão nacional foi dada por Noel, por sua maneira de cantar e contar as coisas do bairro em melodias inconfundíveis, ora suas ora junto com seus parceiros, que fascinavam um Brasil ainda predominantemente rural.
Fico imaginando alguém na década de 1920, em sua longínqua cidade natal, ouvindo contar que ...quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila, ao abraçar o samba. Ouvir que a Vila tem um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém. Ouvir que o sol lá é triste porque os boêmios vivem pelas noites do boulevard a lhe implorar, ... sol pelo amor de Deus não venha agora que as morenas vão logo embora ... .
Como prova disto, não é demais contar uma experiência pessoal, já que modéstia à parte, meus senhores , meu pai era da Vila.
Era o ano de 2002. O Museu da Imagem e do Som, por sua Presidente Marília Barboza, organizou um Encontro Nacional de Pesquisadores na UERJ.
Muito concorrido, com estudiosos de todas as partes, José Ramos Tinhorão foi o convidado especial por sua participação no filme sobre Paulo da Portela que fizemos para comemorar o centenário do legendário portelense. Coube a mim produzir e dirigir o show em homenagem a Tinhorão. Convidei, para tanto,sambistas de Botafogo pra referenciar o bairro de nascimento do mestre.
Terminado o show, Maria Augusta a carnavalesca reuniu um grupo de pesquisadores que manifestara desejo de comparecer ao ensaio do Salgueiro, ali perto que era, na Tijuca.
Dividimos as pessoas e no meu carro viajaram cinco pesquisadores: um de Campo Grande, um do Amazonas, dois de Recife e um de outra cidade de Pernambuco, apertadíssimos.
Ao me dirigir para a quadra do Salgueiro, decidi mudar um pouco o caminho. Peguei a Avenida 28 de setembro, antigo caminho do Macaco e mostrei a escultura de Noel e o garçom na mesa do bar. E cantarolamos juntos: seu garçom faço o favor de me trazer depressa... . Mostrei as partituras do Feitiço da Vila desenhadas em pedras portuguesas nas calçadas do Boulevard.
Mostrei a Praça Barão de Drumond, o homem que inventou o jogo do bicho, mostrei o antigo Jardim Zoológico onde nasceu o jogo do bicho, voltei pela rua Teodoro da Silva e mostrei o prédio chamado Noel Rosa, no local onde um dia existia o bangalô da família Rosa. Dobrei à direita e ao entrar na rua do supermercado Extra, antiga fábrica Confiança de tecidos, todos cantamos entusiasmadamente:
" ...quando o apito,
da fábrica de tecidos
vem ferir os meus ouvidos
eu me lembro de você" .
Fiquei feliz porque, ao final do passeio por Vila Isabel, ninguém mais quis ir ao samba. Ficamos por ali mesmo conversando.
Acharam engraçado quando informei que a mais carioca das instituições de Vila Isabel, o jogo do bicho, na verdade não tinha sido inventada nem pelo Barão de Drumond e nem havia sido em Vila Isabel. E que o Barão mesmo nem carioca era, pois nasceu em Minas Gerais. Na verdade o jogo já existia na rua do Ouvidor, era um jogo das flores, inventado por um Mexicano.
O que o nosso Barão fez foi adaptar o jogo, substituindo as flores por bichos. Fazia isto para viabilizar o financiamento dos altos custos de um jardim de animais. Mal sabia ele de que estava entrando para a história, inaugurando uma das maiores tradições da cidade e do país.
Muita discussão e muita controvérsia...
Para acalmar os ânimos, o experiente garçom trouxe mais uma rodada. O pesquisador de Campo Grande Mato Grosso do Sul - propôs um brinde à memória de Noel e de Ceci, paixão maior do poeta; lembrou o samba a ela dedicado, por ela inspirado, levantou o copo e mandou solene:
" nosso amor que não esqueço
e que teve o seu começo,
numa festa de São João,
Morre hoje (...)"
Valeu, Noel ! Tá fazendo 97 anos...
Sugestão para ouvir:
Música: 'Presença de Noel'
Autor: Martinho da Vila e Gracia do Salgueiro
Cantor: Fabiano
Disco: Butiquim do Martinho
Sugestão para ouvir 2:
Muito prazer! Isabel de Bragança (...) mas pode me chamar de Vila.
Samba da Vila Isabel de 1994
Autores: Evandro Bocão, André Diniz e Bombril
Cantor: Gera e Jorge tropical
Disco: Disco Oficial do Grupo Especial
Em tempo: Tá legal que não precisa ser nome de nenhum aeroporto, como Tom Jobim, nem tampouco ser a mais famosa rua da Vila Isabel, como é a Rua Vinícius de Moraes. Mas já era tempo de Vila Isabel ter uma rua de verdade com nome de seu ídolo. O túnel Noel Rosa tem muito pouco a ver com o bairro, fora o medo que a gente tem de passar por ele. Muito menos aquela ruazinha sem saída já existente que fica muito mais para Andaraí do que pra Vila Isabel. Muito menos aquela ruazinha também já existente no longínquo subúrbio de Cosmos entre Campo Grande e Santa Cruz, a dois anos-luz de Vila Isabel.
Seria muito bom que no ano do centenário do poeta, em 2010, o povo da Vila já pudesse fazer uma grande festa já na rua a Vera com o seu nome. Pensando bem, tem é que ser rua principal. Minha proposta é mudar o nome da 28 de setembro para Boulevard Noel Rosa, ou quem sabe mudar o nome da antiga Praça 7, atual Barão Drumond, para Praça Noel Rosa. Primeiro que a tal da Lei do Ventre Livre, cuja data deu nome ao Boulevard (28 de setembro), é uma leizinha muito marota. Será que o ventre era livre mesmo? O menino nascia e ficava sob a autoridade do senhor de sua mãe até completar 8 anos.
A partir daí, ou o senhor recebia 600$000 ou escravizava o menino até 21 anos, só depois o menino era livre, pode? Será que Noel não merece mais do que essa leizinha marota? Segundo porque o nosso queridíssimo Barão já foi contemplado com a rua Vianna Drumond, que é ninguém mais que ele próprio. Em último caso podemos até aceitar a atual Praça Maracanã, que fica localizada, estrategicamente, na entrada do Boulevard 28 de Setembro.
FONTE: Luis Carlos Magalhães (Colunista do Dia na Folia)
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